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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Saudades

 Hoje foi um dia de muita saudade e acabei voltando aqui neste espaço, que nem é mais tão usual, mas fiquei saudosa de um tempo em que digitar aqui as palavras que dançam em minha mente aliviavam a alma.

Senti saudade de tudo, das pessoas daquele tempo, da alegria que vivia em mim, do amor que tinha pelo homem da minha vida, senti mesmo saudade de mim. Do meu olho cheio de esperança, de um certo cheiro de cigarro misturado com bala Halls, mesmo que eu odiasse cigarro, senti saudade do meu corpo mais forte e com mais colágeno, saudade da minha ingenuidade, das noites mal dormidas, das borboletas no estômago, da correria agoniada, dos suspiros, dos sorrisos, mas, sobretudo, senti saudade de mim.

Saudades dos sonhos que eu acreditava que iam se realizar, saudades de fazer planos de viagem e de vida, saudade da confiança que eu sentia na sorte e no amanhã.

Muitas saudades. Saudade que tem nome, mas não tem mais endereço. Saudade do que foi embora e não teve chance de se concretizar. Só saudade.

Tanta saudade que vim aqui, nesse blog, onde ninguém mais escreve, nem segue, só pra registrar e esquecer da saudade.

E é isso! Vim escrever sobre a saudade de ter, de ser, para quem sabe, deixar partir e seguir.

Coisa que só entende quem sente saudade e eu sinto, muita.



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Mais uma volta em torno do sol


Escrito em 11/12/2017

Eu ando silenciosa. Dizem que quando Serpente silencia é pra dar um bote, mas às vezes é só pra reunir forças mesmo.
Ontem completei mais uma volta em torno do sol, mais uma primavera. É interessante que apesar do calor, nasci na primavera e eu gosto disso. Sagitariana assumida, apesar de muitos planetas em Virgem, tenho nas relações de afeto uma grande força. As pessoas que amo são uma força importante e as prezo imensamente.
Já há algum tempo venho prezando por ritualizar cada experiência na vida e, neste sentido, ritualizar tem muito mais a ver com estar atenta ao que se sucede à minha volta e poder celebrar cada momento do que outro simbolismo.

Eu sou uma serpente, não é à toa que ali entre parênteses ao lado do meu nome no Facebook eu pus “Najy”, é uma brincadeira, na verdade um trocadilho,  que reúne Nany e Naja. Sendo eu uma serpente que em muitas culturas tem a ver com transformação, minha vida é regida por ciclos. Nessa trajetória de eterna transição há alguns anos meu desafio é me apropriar deles para não ser engolida.

Ritualizar, para mim, é celebrar cada ciclo, seja ele feliz ou um pouco mais desafiador.

Ontem decidi que seria um dia diferente, acordei antes do povo de casa e fui celebrar o sol do dia do meu nascimento, estava lindo, agradeci em prece, as preces que conheço e que estão internalizadas nos meus ciclos. Depois disso, comecei o dia com música e zueira da parte de minha mãe. Fui tb ler cada mensagem que chegava por diversas vias, respirei e senti o abraço em cada um delas.

Bebi cada palavra dirigida a mim, tomei cada segundo que me foi presenteado através da escrita. Li cada coisa boa, cada sentimento bom, em textões, em textinhos, em abraços com poucas palavras fui sentindo cada coisa.

Percebo cada vez mais o quanto toco e sou tocada pela alma dos meus amores, me surpreendi com a intensidade de algumas palavras, na verdade com a reciprocidade do carinho que sinto e nem sempre comunico. Porque eu pareço durona, mas sou uma manteiga derretida. Nós, Centaurinas, usamos o casco como proteção porque o coração é leve e viajante.

É maravilhoso sentir a harmonia de amar e ser amada, compreender que os ciclos se manifestam nisso também. É incrível viver em consonância com nosso coração e ontem foi só isso que senti.

É claro que eu gostaria que todos os meus amigos estivessem comigo, toda a minha família, toda gente que eu amo, mas também aprendi que não se pode ter tudo e amo o que tenho e da forma que tenho. E é tanto amor que acolhe a alma que eu só anotei os nomes dos que não estavam comigo à lápis (hahahahahaha), ou seja, ainda há tempo de se redimir.

Bem, eu queria dizer que sou muito grata por todas as formas de amor que recebo, por cada manifestação de carinho, por cada pessoa que eu tenho nessa vida: minha família, meus amigos e amigas, meus irmãos e irmãs de axé que permanecem aqui, meu amor que hoje é meu amigo querido, minhas queridas Lobas, as amigas que estou conquistando pela estrada acadêmica, as pessoas que conquistei pela escrita, pelos vídeos, por ser quem sou. Me sinto realmente abençoada com a presença de todas as pessoas.

Que no próximo ciclo continuemos juntas/os e que eu possa ter mais de vocês comigo, porque realmente isso é cada vez mais importante pra mim.

Obrigada por deixarem minha vida mais feliz!

domingo, 17 de dezembro de 2017

Saudade: uma estrada

Tenho saudades de coisas que nunca foram. Também tenho saudade daquela que fui há tempos atrás, esse tempo pode ter sido ontem, há cinco anos ou da menina de tranças e muitos sonhos que fui um dia. 

Conservo todas elas aqui, mas nunca escondi que sou feita de ciclos, “Mulher Mutante”, Serpente em constante mutação. E sendo essa espiral ascendente, às vezes sempre, outras vezes pouco, sinto falta de mim, de pessoas, de cores, amores, poesias, de esperanças que já não tenho, eu sinto saudade.

Não é que eu me arrependa de quem sou, nem que eu queira voltar ao passado. Não! O passado é um lugar que não me pertence, sou mulher do agora e prezo o que construo nessas trilhas. Mas há uma beleza no colorido que o hoje dá ao ontem que é difícil descrever.

Hoje eu sou outra, mais sábia, mais livre, mais eu e olhar pra ontem me faz perceber a ternura de alguns momentos, de alguns encontros, me faz querer abraçar aquela moça e dizer: “aproveita, isso também vai passar.”  porque sei que a mulher que sou hoje não viveria quase nada do que vivi ontem.

São outras experiências, outras construções e desconstruções.

Pois é, tem dias que acordo assim, são dias em que estou saindo de mais uma casca, sem saber muito o que há por vir, dias em que estou com medo, com esperança, comigo.

Mas voltar pra casca, voltar o tempo, voltar não é opção. A única estrada é para frente, ao lado de quem a gente ama e de quem nos ama. Em frente e junto.

Eu amo aquela música do Renato Teixeira, Tocando em frente, gosto na voz do Almir Sater, tem uma sabedoria simples e bonita nela quando ela diz “estrada, eu sou”.

Ser estrada não é simples, não é viver de passagens, é agregar cada passo à sua trajetória, aprender com cada um deles ainda que não vá repetir nenhum deles, porque a vida, assim como o tempo, não pára, assim disse outro poeta.

Por isso que tudo passa e o que nos significa são as saudades que temos. Saudade é memória doce, amarga, afetiva, seletiva, saudade é história, saudade é o que conta os passos que caminhei nessa estrada sendo sou eu mesma.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Corpos que importam

Publicado originalmente na maravilhosa Revista Vertigem, em 16/01/2017.

É com muito prazer que escrevo pela primeira vez neste espaço que tanto admiro, a revista Vertigem, uma revista feminina em todos os sentidos, feita por e para mulheres. Sinto-me grata por trazer minha voz e meu corpo negro para este espaço, não por crer que posso representar a totalidade de pessoas negras ou das mulheres negras, realmente não creio que isso seja possível, mas por acreditar que meu corpo e minhas palavras carregam muito mais do que meu ego limitado, e, sendo assim, meu corpo negro abre espaço para que muitas outras mulheres negras possam se identificar ou não, possam querer falar em consequência disso e abrir um espaço de compartilhamento de saberes muito importante para toda e qualquer reflexão e para nosso crescimento individual e coletivo. E é com esse sentimento que trago uma reflexão que tem dormido e acordado comigo nos últimos tempos. Diante de chacinas em presídios, chacina de famílias motivadas pela misoginia, de mães que perdem o direito de chorar pelo filho morto e de mulheres que são enganadas e mortas sonhando em dar um enxoval a seu filho, quais são os corpos que importam em nossa sociedade? Nos Estados Unidos há um grande movimento gritando “Black lives matter”, isto é, “vidas negras importam”. Eu segui uma trilha para refletir daqui do meu cantinho a respeito dessa afirmação e espero que minha trilha também estimule a reflexão de vocês.
Tudo começa e termina no corpo, é ele a nossa primeira morada, antes mesmo da casa e do mundo, é dele que a gente não pode se desvencilhar, é nele que contamos uma história de muitas vidas, através de nossas características como cor, cabelos, estatura, peso. Dele e também dos nossos genes que carregam a herança de toda nossa linhagem familiar.
Pedagoga, psicóloga e uma das minhas musas inspiradoras, Azoilda Loretto da Trindade, conceituando alguns valores civilizatórios afro-brasileiros, falou sobre a importância da corporeidade para os povos africanos e também para nós. Ela destacava que esses povos trouxeram suas riquezas no corpo, porque este havia sido o único bem que lhes foi permitido trazer. Os europeus que os trouxeram de lá vislumbraram apenas sua força de trabalho e, assim, os trataram como máquinas, como coisas, mas havia muito mais naqueles corpos, havia história, memórias, ancestralidade, formas, cores, línguas, havia a sacralidade daqueles corpos, e, por isso, segundo Azoilda, a corporeidade é um valor civilizatório importante.
Antes de conhecer outra pessoa, eu vejo o seu corpo, suas marcas, sua história contada através do cansaço de um ombro caído, vejo a alegria num semblante luminoso ou mesmo a tensão de uma testa franzida. O corpo também conta outras histórias, ele revela padrões impostos e, por meio dele, podemos também perceber que padrões são valorizados e quais têm sido marginalizados nessa sociedade.
E o que a nossa experiência em sociedade nos diz sobre nossos corpos? O corpo das mulheres vem sendo escrutinado, legislado, engessado desde sempre, não é à toa que, de forma geral, nem culturalmente nem legalmente temos direito a decidir o que fazer com nossos corpos, vide a lei que criminaliza o aborto ou os padrões estéticos impostos às mulheres que não observam a realidade brasileira e imprimem um modelo de mulher magra, branca, de cabelos longos e lisos, ou seja, tudo nos aponta para um modelo que exclui a maioria de nós, inclusive a dificuldade em achar diversidade de roupas interessantes acima do manequim 38. Ainda assim, estamos por aí, submetendo-nos a dietas malucas, expondo-nos a químicas agressivas para domar os cabelos, para moldar o corpo com cirurgias ou métodos invasivos e, dessa forma, tentarmos alguma aceitação externa.
O preço disso é uma desconexão total de nós mesmas, de nossas histórias, das formas corporais que contam as histórias de nossa ancestralidade, das marcas que nos fazem pertencer às nossas famílias, que nos lembram de respeitar as nossas origens. Clarissa Pinkola, em seu lindo livro ‘Mulheres que correm com os lobos’, dedica um capítulo ao “corpo jubiloso” e lembra que ele, o corpo, é um catalisador de todas as nossas experiências e nos informa
sobre cada uma delas.
Para a psicanálise, é a partir da imagem do corpo que constituímos o nosso “eu”, essa imagem seria introjetada desde fora, identificada internamente e depois, projetada pelo sujeito. Com a distinção que nossa sociedade faz a respeito dos corpos, percebemos o quanto isso pode afetar a construção de nossas subjetividades. Para os corpos perfeitos, tudo, para os outros corpos, a lei, o julgamento, os olhares, a reprovação, a marginalidade.
A psicanalista Neusa Santos Sousa, no livro ‘Tornar-se negro‘, trata dos obstáculos na vida das negras e negros em sua trajetória de subjetivação. Ela afirma que, nesta sociedade, no caminho da ascensão social, as pessoas negras precisam negar seu passado e seu presente: o passado no que diz respeito a suas tradições e histórias, e o presente referindo-se à negação da discriminação.
Ora, negar o passado seria distanciarmo-nos de tudo aquilo que nos constitui, as bases culturais e filosóficas de vários povos que, querendo ou não, estão presentes em nossos genes e em nossa memória ancestral. Significa esquecer, por exemplo, da cultura e filosofia iorubá, que, entre outras, chegou até aqui através dos corpos africanos e nos ensina que tudo no universo é divino e tem personalidade. Esquecer de Esù Bara (lê-se Exu Bara), uma divindade demonizada pelo olhar eurocêntrico e cristão, que seria o princípio dinamizador e também nosso Mensageiro. E sabe onde seria a morada desta divindade? O corpo! Esù Bara é o mensageiro divino que mora em nossos corpos e nos informa sobre nossa necessidade de movimento, descanso, informa sobre nossa totalidade e nos põe a caminhar. Eu ficaria linhas e linhas escrevendo sobre a importância de nos apropriarmos de nossos corpos, sobre nos integrarmos com nossa verdade interior, sobre olhar, aceitar e assumir o corpo que temos, mas, por hoje, vou escolher problematizar uma questão: se o corpo carrega algo tão importante como as memórias, não apenas de nós mesmas, mas de nossa ascendência (ancestralidade), o que acontece quando hierarquizamos os corpos que importam? Como essas regras se impõem a nós e quais as consequências para os corpos marginalizados?
Basta deslocarmos o olhar para fora e vemos corpos negros nas favelas sendo mortos pelo Estado, pela violência, pela fome, pela falta de perspectivas e qualidade de vida. Corpos negros nos presídios, em consequência da morte simbólica e/ou real nas favelas, corpos negros nas instituições psiquiátricas, adoecidos em sua saúde mental por não “se enquadrarem” na lógica do nosso mundo ou porque o mundo não tem lugar para eles, corpos negros sem educação formal e destinados, em sua maioria, a trabalhos braçais, corpos de mulheres negras grávidas violados para o uso e abuso de outrem, corpos negros hiperssexualizados sendo expostos em vinhetas carnavalescas, nos estereótipos objetificados criados pela mídia televisiva ou vendidos como “prato principal” do turismo sexual. Corpos negros nos lugares que não queremos ver, experimentar, pensar, no lugar daquele outro distante, no lugar daquele que não sou eu, do asco, do não humano.
E assim se constitui uma ideia sobre a população negra no Brasil. Nossa sociedade não está habituada a ver nem aceitar pessoas negras em lugares diferentes desses que mencionei, vejamos as dificuldades em aceitar pessoas negras nas universidades ou a entrada e atuação dos médicos e médicas negras estrangeiros. A ideia acerca da população negra num lugar de subalternidade é o que está cristalizado em nossa base cognitiva, ou seja, a maneira como adquirimos o conhecimento a respeito da população negra está marcada pela percepção que temos do mundo, por nossa memória e nossas referências socioculturais. No Brasil, isso tem a ver com aprender desde a escola que pessoas negras foram escravizadas, que não resistiram a isso, que essa escravidão foi abolida por uma princesa e, desde então, a população negra não fez nada a não ser “se vitimizar” como desculpa para não progredir.
Precisamos conhecer a história por inteiro, saber sobre as civilizações africanas que existiam desde antes da invasão europeia, a tecnologia que foi importada através do conhecimento desses corpos que foram escravizados, no âmbito da metalurgia, da agricultura, da medicina, conhecer as lutas do povo negro, a resistência dos quilombos, os movimentos negros atuantes e que influenciaram e influenciam nas lutas pelos direitos civis, direitos humanos e direitos das mulheres, conhecer nossos heróis e heroínas, nossos(as) cientistas, mártires, conhecer uma história que nos foi negada pelo racismo e que discriminou nossos corpos entre bons e maus, brancos e negros, visíveis e invisíveis. E, assim como fizeram com nossos corpos, também o fazem com nossas dores, com nossas conquistas.
Em setembro de 2016, eu tive a felicidade de ser convidada para falar no seminário ‘Ventres livres? Mulheres negras e maternidades’, realizado pelo grupo Intelectuais Negras, participei da roda de conversa “Territórios dos ventres livres e sexualidades”. Naquela ocasião eu pude falar sobre saúde, sexualidades e maternidades, assim mesmo, com “s” no final, pois acredito na diversidade, logo não haverá uma forma, nem um número limitado de formas de viver a sexualidade, a maternidade, a paternidade; não há limites para formas de viver, e toda forma de vida deve ser respeitada. Falei também sobre a importância de resgatarmos a sacralidade dos nossos corpos, não numa perspectiva engessada e judaico-cristã, mas de maneira a entender o corpo como nosso principal vaso alquímico. É a partir dele que experimentamos o mundo, que nos encontramos com os outros, que nos percebemos, que transmutamos todas as nossas vivências.
O corpo é sagrado e precisa urgentemente ser respeitado, não este ou aquele corpo, mas todos os corpos. Precisamos compreender todos esses processos que hierarquizam e escravizam nossos corpos e combater essa dicotomia que nos aprisiona, que nos divide e que segrega alguns grupos mais do que outros. O saber sobre nossos corpos, entrelaçados com nossas histórias e tudo o que nos constitui, abre a janela para um sem-número de possibilidades de ser, para nos enxergar como somos: únicos e ao mesmo tempo diversos.
Diante da questão sobre quais são os corpos que importam, me vejo em frente a tantas imagens de opressão, tantos preconceitos que apoiam um imaginário social e causam sofrimento a todas as pessoas consideradas fora do padrão. Nesse sentido, destaco a população LGBTTI, a população negra, as mulheres e, especialmente, as mulheres negras, grupo no qual eu me enquadro. Vejo que é urgente a necessidade de questionar e desnaturalizar os padrões que engessam nossos corpos. Nós precisamos criar um ambiente em que as várias maneiras de existir sejam respeitadas e apoiadas na multiplicidade e diversidade, talvez seja essa a quebra de paradigma que precisamos para termos uma experiência de viver em equidade, a experiência de respeito a todos os corpos e a todas as histórias contidas em cada um deles.
Curiosamente, ao buscar uma imagem para associar a este texto, encontrei esta foto da dupla de cantoras gêmeas Lisa-Kaindé e Naomi Díaz, que formam o Ibeyi, dupla musical de que gosto bastante e que recomendo ouvir. Elas trazem em suas letras e canções a ancestralidade afro-cubana, falando de suas divindades através da tradição lukumi, que seria a maneira cubana de cultuar as divindades africanas. O nome da dupla faz alusão à divindade que conhecemos, no Brasil, como Ibeji, os gêmeos divinos. A palavra significa, literalmente, “nasceram dois”. Como gêmeas, para sua tradição, elas também são a divindade na Terra. Nada é por acaso, pois é desse lugar de respeito à historicidade dos corpos que precisamos olhar para cada pessoa, devemos olhar o universo encerrado em cada sujeito e que se comunica conosco por meio de seus corpos onde estão tatuadas as suas memórias.
Nany Kipenzi Vieira é psicóloga, iniciada para Yewa, especialista em Clínica Psicanalítica, pesquisadora das relações raciais, de gênero, laicidade e liberdade religiosa.
Imagem: Pexels

Liberdade religiosa e os ataques a terreiros no RJ

Publicado originalmente no dia 13/09 no Medium.
“Discorrer sobre liberdade, quem tem direito a ela ou ainda se há liberdade possível em uma sociedade que se baseia em desigualdades torna-se um questionamento relevante sobre um tema atual que é o direito à diversidade.
A liberdade tal qual como conhecemos e evocamos é um conceito datado historicamente. A ideia de liberdade, segundo esse pensamento, também está atrelada a ideia de direitos, especialmente direito a liberdade de expressão, por outro lado, também coloca em tensão os limites destes mesmos direitos, uma vez que as liberdades individuais por vezes resvalam nos direitos coletivos.”
Este é um pequeno trecho do trabalho de final de uma disciplina do mestrado em Psicologia Social que comecei a cursar no semestre passado. Há mais ou menos dois meses atrás, eu me debruçava sobre o tema da liberdade. Naquela ocasião eu usei a liberdade religiosa para tentar traduzir estas tensões que mencionei e para falar do quanto somos atravessadas socialmente por valores coloniais que alimentam nossos pensamentos e práticas no encontro com o outro.
Sendo assim, a forma como entendemos as relações interpessoais, institucionais, sociais e políticas são perpassadas por alguns atravessamentos, entre eles, valores classistas, sexistas, racializados e também religiosos.
O Brasil nasceu como um Estado religioso e hoje, apesar afirmarmos a laicidade nos termos da Constituição, vivemos em uma sociedade religiosa. Este não seria um problema, poderia ser apenas um fato da história do país se houvesse liberdade religiosa, bem como, se houvesse o direito de não crermos em divindades superiores ou mesmo de duvidar da existência de um plano superior, mas não é o que ocorre.
Temos presenciado uma série de movimentos que apontam para uma onda de recrudescimento e conservadorismo, assistimos a um impeachment que não havia base legal para ter sido implementado, acompanhamos o aumento do feminicídio, temos visto opiniões religiosas influenciarem em decisões de Estado como descriminalização do aborto e das drogas, por outro lado vemos o entrave para criminalizar a homofobia, violência que mata todos os dias e observamos também de forma assustadora o crescimento da intolerância religiosa.
O que está em jogo é o ódio a tudo ao que não é hegemônico e a hegemonia é masculina, branca, rica, cristã e heteronormativa. Só no último mês tivemos um decreto no município do Rio de janeiro que dá plenos poderes ao gabinete do prefeito de liberar ou proibir qualquer evento na cidade, inclusive reuniões de cunho religioso em locais público E (atenção ao E) privados, ou seja, voltamos a década de 50 quando as religiões não cristãs eram perseguidas, antes pela polícia, agora há o decreto municipal.
Decreto nº 43.217, de 26 de maio de 2017, do Município do Rio de Janeiro
Art. 2º Para efeito do disposto no § 1º do art. 1º deste Decreto, considera-se evento, todo exercício temporário de atividade econômica, cultural, esportiva, recreativa, musical, artística, expositiva, cívica, comemorativa, social, religiosa ou política, com fins lucrativos ou não, que gere:
I — concentração de público, em áreas abertas ou fechadas, particulares ou não;
II — intervenção em logradouro público, ainda que não enseje a hipótese do inciso I;
Art. 4º Competirá ao Gabinete do Prefeito a outorga da autorização de que trata este Decreto e à Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização — CLF — a ação fiscalizatória sobre as atividades desenvolvidas pelos particulares.
Parágrafo único. A gestão do sistema RIAMFE será exercida pela CLF ou pelo Gabinete do Prefeito.
Nos últimos 30 dias também vimos uma idosa ser apedrejada em razão de sua pertença religiosa, assim como vimos uma criança sofreu a mesma agressão há dois anos atrás. Vimos religiosos no município de Nova Iguaçú, onde ocorreram vários episódios de intolerância religiosa, denunciarem e pedirem respostas a respeito desse tipo de violência e nos últimos dois dias tem circulado um áudio de uma religiosa alertando seus irmãos e irmãs de fé e um vídeo da coação de religiosos de matrizes africanas e depredação de espaço e símbolos sagrados.
Ora, conhecemos o argumento de que a viralização de imagens e áudios via redes sociais não consiste em provas suficientes para tomar providências cabíveis, mas assusta-me perceber que alguém se sente seguro o suficiente para gravar imagens como aquelas que vi e sair impune. Assusta perceber que não há comoção uníssona de religiosos de todas as denominações contra esse tipo de prática, assusta ainda mais perceber que é justamente o discurso religioso de determinadas vertentes que fomentam esses atos.
Estamos aqui nessa encruzilhada, diante de padrões construídos historicamente e socialmente que atravessam nossas subjetividades, diante também da violência, do desrespeito, da barbárie, da submissão do outro, de um povo, de suas práticas sagradas. O que faremos? Como nos posicionamos diante desse caos?
O caos não mora ao lado, não atinge somente ao terreiro alheio, a religião alheia, a quem está fora do padrão. Essa violência fere a todos e todas, porque fere o direito a liberdade, o direito à diferença.
A liberdade (religiosa ou outros tipos de liberdade) não pode ser um privilégio de uma classe de pessoas, ela precisa estar pautada sobretudo no respeito. Precisamos olhar para estes fenômenos de frente e não nos calarmos, precisamos defender o direito a liberdade em todos os níveis.
Em um ano perdemos muito, são golpes e mais golpes e se fecharmos os olhos, podemos acordar amanhã sem o direito a ter direitos.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Sobre 2016 e a mágica do tempo


Foi um ano de me pôr à prova e ir com tudo, ir com medo mesmo, assombrada pelas tais crenças limitantes que vivem em nós como a insegurança e o medo de rejeição. Por outro lado também precisei lidar com o enfrentamento do racismo que nos assola a cada dia e a parcela dele que vive em mim e as quais eu trabalho todos os dias para reconhecer e me libertar. 

Sabe, eu sempre me considerei uma pessoa ousada, uma mulher aberta a mudanças (e sou mesmo!), mas neste ano eu descobri o verdadeiro prazer de ousar, porque ousadia não é só quebrar padrões que choquem os outros, mas é, principalmente, quebrar os padrões internos, se testar, se questionar e aceitar o desafio de ir adiante, foi uma experiência linda, nem sempre deu certo, mas, percebi que fracasso é uma ilusão que a sociedade inventa para nos colocar medo e/ou cabresto. Pois é, NÃO EXISTE FRACASSO! A gente sempre ganha alguma coisa quando se arrisca, seja mais confiança, sejam aprendizados sobre como fazer melhor da próxima vez ou sobre o que não fazer, sejam pessoas que chegam através das experiências e até podemos chegar ao objetivo almejado. Mas não tentar é a morte, é a inércia. 

Eu seria leviana se falasse mal de 2016. Sim, foi um ano péssimo para o meu país, para os que lutam contra as desigualdades raciais, de gênero, sociais e para os que acreditam nos Direitos Humanos para todas as pessoas. Este foi um ano de retrocessos cruéis, muitas portas se fecharam e a gente vai precisar ser muito criativo para derrubar essas paredes e resgatar o que é nosso. Há muito ainda que conquistar também. 

É óbvio que as políticas macro e essas tragédias me afetaram e continuarão afetando, mas 2016 foi o ano de solidificar pensamentos acerca dessas questões. Eu já não acreditava em políticas macro, principalmente porque qualquer direito adquirido ou conquistado sempre chega a população negra de forma enviezada, minimizada, tosca e isso não é impressão, as estatísticas mostram isso. É importante lutar pela manutenção de direitos e conquistarmos ainda mais, porém minha luta é no campo da micro política, na formação de redes, no corpo a corpo. É falando com minha mãe, minhas tias, minhas primas e primos, compartilhando com amigas e amigos, falando nas escolas, para colegas de profissão, é voltar para academia (universidade) para colorir aquele pensamento e pensar em influenciar aquele espaço neste sentido também.

A gente reclama do ano, da política, da população sendo massa de manobra, mas somos nós que fazemos isso, nós somos os coxinhas, somos a esquerda caviar, somos pão com mortadela, porque este povo somos nós. Não adianta falar do Brasil, como se fôssemos alienígenas. Vamos nos perguntar: O quanto estamos nos doando para mudar nosso próximo/a?

Falar desse outro indefinido é bem mais cômodo, mas entrar no embate com a tia ou com o primo na mesa do jantar é que abre estradas para novos pensamentos. Esse ano eu bati o pé em relação a isso, eu me dispus ser criticada ou parecer arrogante quando falo aqui no Facebook e em qualquer lugar que não assisto TV, por exemplo, parece bobagem, mas não é. Com isso eu estou marcando uma posição política de recusar as informações pobres, distorcidas e manipuladas que nos são vendidas e estou abrindo um canal para que me questionem e reflitam. Eu dou minha cara a tapa ao discutir minhas posições políticas com meus familiares, questionar piadinha machista ou lgbtfóbica, desconstruir pensamentos sobre religiões não hegemônicas, afirmar meus pensamentos que divergem de amigas, amigos e irmãos de fé. Resumindo, 2016 foi o ano de “ser a pessoa que eu quero para o mundo”, foi meu mantra pessoal. Afinal, não adianta eu querer uma sociedade maravilhosa, um ano maravilhoso, se eu não for maravilhosa. Então, meu trabalho no ano que passou foi o de me tornar maravilhosa e ainda estou trabalhando nisso.

Eu redescobri e agarrei minha missão de vida no ano de 2016 e esse foi meu maior presente, não foi exatamente nada novo, mas foi o ano de assumir esse compromisso. Nós vivemos em um mundo onde as pessoas negras, quase todas, desejam serem invisíveis, querem ser deixadas em paz para viver suas vidas, porque o racismo é atroz, mas isso tem consequências para nossas subjetividades, a gente se apaga, se esconde, se submete a padrões que marcam nossos corpos e mentes. E este ano eu, definitivamente, decidi assumir meu lugar nesse mundo. Aceitei a missão de sair da invisibilidade e marcar a vida das pessoas, desse meu jeito tímido e falante, mas deixar marcas, trazer reflexões, porque abrir portas para mudanças me faz crer num futuro melhor.

Eu sou uma pessoa melhor depois de 2016, agradeço a minha mãe e toda a minha família pelas trocas, pelos risos, pelo suporte, pela força. Agradeço as minhas amigas (irmãs) e amigos (irmãos) pela caminhada lado a lado, pelas mãos que se seguram, pelas surpresas, pelos reencontros, pelo amor entre nós. Agradeço as minhas afilhadas e afilhados pela luz, pelo presente, por serem as vozes de Deusas e Deuses a cada áudio, foto, chamada em vídeo, em cada abraço e as lindas sobrinhas e sobrinhos que me deixam feliz e orgulhosa a cada conquista. 

E é por isso que chego em 2017 com o coração aberto para continuar a trilhar essa estrada de amor, de fortalecimento, de amadurecimento pessoal e coletivo. Estou pronta para fazer a colheita de tudo que tenho plantado e confiante de que haverá muitos outros aprendizados e. felizmente, a vida tem me preparado para eles.

Se eu tenho uma coisa a desejar pra vocês nesse ano é que se doem, doem a si mesmos, sua escuta, seu colo, seu riso, sua presença. Estar presente de forma inteira na vida, em cada situação, é a melhor experiência que podemos ter, faz momentos memoráveis, cria pontes, laços e retorna mais presença para suas vidas.

Sejam presentes e recebam os presentes que a vida sempre nos traz.
Felicidades pra vocês em todos os dias e todos os anos!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Crônicas da Serpente: sempre sobre Elas

Para quem não entende minhas "brincadeiras" entre irmãs e meu fascínio por COBRAS, SERPENTES e afins:
A Serpente é uma vítima de preconceito. As pessoas associam COBRAS a traição. É cultural, se sonham com cobra já pensam em quem está traindo, se detestam alguém, quase sempre do sexo feminino, qdo o sentido é pejorativo, chamam de cobra e similares. Enfim, a Serpente aparece como representação do que é mal, traiçoeiro, algo negativo. Até no mito cristão está lá a Serpente seduzindo "pobres seres inocentes" a traírem sua divindade.
Eu escrevi uma vez umas linhas que eu, ousadamente, chamei de "crônicas da Serpente". E eu dizia lá, baseada em pesquisas, que o veneno da cobra é apenas proteção e que ela não ataca ninguém a não ser para defender a si mesma ou ao seu território.
A Serpente em várias tradições é símbolo de RENOVAÇÃO e de TRANSMUTAÇÃO, tanto que ela esteve na cabeça de Ísis, está no caduceu, símbolo da Medicina e o 'ouroboros', a cobra que engole o próprio rabo, é símbolo de início e fim, ou seja, a eternidade.
Além de tudo isso e, principalmente, por conta disso, para mim a maior motivação para meu fascínio é que sou filha de Iyewa, um orixá da cosmologia africana para a qual sou iniciada há 9 anos.
Os orixás são reverenciados na Natureza, eles e elas SÃO Natureza e tudo que há nela. São fogo, vento, rio, guerra, saúde, doença, vida, morte, caça, folha, sabedoria.
Esta Deusa, minha Mãe, é Transição. Ela está em todas as transições, em tudo que é etéreo tb. É a deusa da beleza, uma deusa caçadora, que se cobre com Palha, que vê o mundo, porque nunca dorme e que é bruma encantada, uma Serpente linda e protetora de suas filhas.
Eu sou apaixonada por Iyewa, sou apaixonada por Serpentes. Ela ensina no silêncio, às vezes na dor necessária. Ensina que tudo é transitório, tanto que Ela muda de pele.
Eu mudo de pele e isso não é alegoria. As pessoas mais próximas sabem que esse é um fenômeno anual e eu estou no meio dele. Todos os anos, mais ou menos entre julho e setembro, isso acontece. Desde antes de eu ser iniciada.
A Serpente Iyewa mora em mim de um jeito que não me cabe, transborda. Eu já tive medo disso e hoje, já não sei dizer o quanto dEla é meu e o quanto de meu é dEla.
Eu não pretendo mudar o que as pessoas pensam sobre Serpentes, seria muita pretensão minha mudar toda essa construção social. Nem me ofendo quando as pessoas fazem essas metáforas. Só estou aqui dizendo que as coisas não são como parecem. Tô aqui pra dizer que quando eu clico no botão "amei" quando algo se refere a Cobras é pq realmente as amo.
E ser associada a uma Serpente, para mim, é motivo de orgulho. E, definitivamente, traição é algo que não se aplica ao meu dicionário, digo isso sem sombra de dúvida. Silenciosa sempre, traiçoeira nunca.
Por fim, gostaria apenas convidar a todas as pessoas a conhecerem mais sobre as cobras, o aprendizado que se tem com elas é algo que nos ensina a superar, a calar, a sermos livres e cuidar de nossas próprias vidas e espírito, porque quem rasteja, sabe bem o sacrifício que a estrada traz ao caminhar.

domingo, 3 de julho de 2016

Só a Música (e a escrita) ME salva!

Eu não me considero fã número 1 de nenhum cantor ou cantora em especial. Digo isto pq não sou de assistir a todos os shows, nem saber cada detalhe da vida de determinada/ o artista, me apaixono pela obra. Mas há alguns que têm um lugar certo no meu coração.

Chico Buarque, Caetano, Djavan e Gilberto Gil são especiais pra mim, só falando das vozes masculinas. Chico e Caetano então... amo muito.

Eu já fui "vizinha" (hahahahaha) do Chico Buarque. Na verdade eu morava no Minhocão e ele no Alto Leblon. Meus amigos de apartamento sempre o viam pelas ruas e eu nunca, era uma frustração.

Eu tinha a fantasia de passar perto dele e cantarolar:

"Os letreiros a te colorir,
Embaralham a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir"

Loucura, eu sei, mas este é o trecho de uma das músicas que mais gosto dele, "Vitrines".

Até que um dia eu vi o Chico, eu já não morava mais no Minhocão, mas na Marquês de São Vicente que é pertinho tb. Eu o vi na calçada oposta, ainda longe. Atravessei, claro!

E ele veio apressado, boné e olhos intensos. Ele vinha, vinha e eu fiquei capturada nas vitrines daquele olhar. Esqueci da música, esqueci da letra, esqueci do momento.

E Chico passou.

Mas por quê falar disso agora? Porque lembrei que música me salva, que elas embalam minha vida. Lembrei tb que naquele dia me dei conta do motivo pelo qual eu amava aquela letra. Porque ela falava de olhar. De um olhar endereçado, mas no caso da música, não retribuído. E do quanto era e é preciso refletir sobre esses endereçamentos e as expectativas que criamos em relação aos olhares dos outros.

Eu não cantarolei para o Chico, mas experimentei exatamente o que Vitrines propunha, fui capturada por aqueles olhos e pude repensar meus endereçamentos e projeções.

Óbvio que certamente eu não faria isso, não ia cantar coisa nenhuma. Era uma fantasia que, incrivelmente, se transformou em experiência.


07/06/2016

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Despertar - Nove anos com Ela e Eles


E antes de tudo era o Caos.
A sombra, o escuro, a noite, as vozes indiferenciadas, os sons.
Seria música? Palmas, brados, ruídos?
Seria dentro ou fora de mim?
Que som é este que bate dentro do peito?
Batida ritmada de fora pra dentro e que retorna com uma expressão divina de dentro pra fora.

E do Caos nasce a Luz.
Ainda que seja a luz de uma tímida chama.
E sob a Luz se descobre que aqueles sons eram cantigas.
Mas não as cantigas de ninar que conhecemos.
Eram cantigas de acordar.
Acordar do sono, acordar a alma, pra nascer do Caos.
É, esse bebê que outrora nascia ouviu cantigas para acordar.

E  a Luz se fez, a cada passo, a cada tropeço,
A cada riso, a cada lágrima e cada silêncio foi feito de luz.
Silêncio rompido pelos sons das vozes,
Dos que vieram antes, dos que vieram depois,
Das vozes que falam dentro e fora de mim e que agora me acompanham vida afora.

E essa luz que brota do Caos, que ilumina o Caos
Nunca mais me permitiu sucumbir às sombras,
Ainda que eu a reconheça.
De olhos fechados Ela me ensina olhar além.
E assim, nessa vida renascida,
São anos de Caos e Luz.
Desde então deixei de ser sozinha.
Porque eu sou Uma com a Deusa que me tem.


********
Nove anos de afetos, desafetos, de descobertas, de família, de amor e fé.
Nove anos que Sango, Yewa, Omolu e Oxalá, decidiram caminhar juntos.
E assim vamos!



domingo, 10 de abril de 2016

Notas, apenas notas.



Desde que decidi me olhar com os olhos de Verdade muita coisa mudou.

As escolhas se tornaram bem mais difíceis, re-conheci o significado da palavra "desapego", porque era necessário desapegar-se de mim, de outros, de coisas, pessoas e situações que me eram caras, ou próximas, ou cômodas, algumas bem importantes.

Mesmo que eu seja essa eterna mutante, ainda assim, foi difícil.

Caminho árduo, árido, solitário, às vezes, mas a solidão nunca me amedrontou.

Foi tempo de subir a montanha e observar. Me observar e observar tudo e todos, todas. E, sendo filha da Senhora dAquela que nunca dorme, vi muita coisa.

É, não foi fácil, nunca mais será fácil, há dias que finjo esquecer, me faço tola, me entretenho com algo, mas em um instante vejo tudo novamente.

Dias tensos estes, mas dias de Verdade, fazer o compromisso de não mais mentir sobre si mesma, era o tipo de paz que eu merecia ter.

E essa paz, bem, essa Paz ninguém me tira mais.

Nany.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Amanhã

Dizem que "hoje" é o dia e o momento mais importante de nossas vidas.
Mas não existe hoje sem um "ontem" e o "amanhã" sempre dependerá desses dois.
Ah, o amanhã... Esperança dos jovens, preocupação para os maduros.
O amanhã é sempre uma incógnita, obscuro. Será?

Não, nem tanto. Uma análise mais atenta de nossa vida e de nossas escolhas ontem e hoje podem nos iluminar sobre "como será o amanhã?".

E eu me pego repensando nas escolhas que fiz, as imaturas, impensadas, as enevoadas, todas elas.
E assumindo a responsabilidade por elas eu consigo olhar pro amanhã. Infelizmente, não sem alguma dor.
A dor das oportunidades perdidas, das escolhas erradas, da falta de amor, da ausência.
Minha maior dor no amanhã é a da ausência, uma ausência presente que denúncia meus maiores erros.
E dói pensar num amanhã sem alguns sonhos cortados por um ontem nebuloso.
Dói não ter mais nada a fazer.
Dói olhar para um amanhã inteiro, longo e sombrio sem vc.
Alguns dias eu posso fingir que consigo, em outros o amanhã só parece um grande castigo.

Fazer o quê, né?
Amanhã é outro dia.


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Mais saudades

Gratidão é a palavra do dia.

A todos e todas que de longe e de perto estiveram apoiando minha família nesse momento sensível. Principalmente aqueles e aquelas que apoiaram minha tia e meus meninos.

Meu tio Antônio (Fofinho /Barba) era pessoa querida e muito especial. Poucos sabem mas meu tio foi a única referência masculina que tive durante toda a vida, bem no meio desse mar de mulheres fortes que me cercam.
Era generoso, mas tb sabia ser duro, seu nome do meio era trabalho, era apaixonado pelos filhos e amava minha tia Ceinha, sua Zé.
Meu tio trabalhou a vida inteira, se aposentou e nunca deixou de trabalhar, viu os dois filhos formados, alimentou seu gosto por carro, TV e tranqüilidade.

Meu tio adoeceu,  recentemente revisitou sua cidade de nascença, buscou sua cura e nós estivemos lá para apoia-lo. Tentamos tudo, não conseguimos um diagnóstico médico. Meu tio nos deixou. Mas deixou tb bons exemplos, deixou saudades e boas recordações. Muitas recordações. Vimos isso hoje dito por sua família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Pessoas de credos diferentes. Cores e classes diferentes, todas as pessoas dando testemunho de sua incrível generosidade e força.

É tio... Descanse. Hoje somos gratos por termos caminhado lado a lado com ele e grato porque a vida dele foi testemunho de muita coisa boa e compartilhamos sobre isso em sua última homenagem.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Escrevivendo

Só por hoje eu preciso escrever mais uma vez.
Só mais essa vez.
Para talvez não precisar escrever mais.

Talvez você ainda venha por aqui.
Ou talvez não venha mais.
Talvez você tenha seguido adiante, como disse tantas vezes.
Talvez você tenha cumprido a promessa.

A verdade é que eu te invejo porque você seguiu.
E eu só queria te esquecer.
Asim, como você fez,
Não ter que me perguntar  como você está a cada momento da vida.
Não ter que sofrer sua ausência, mesmo nos dias felizes.
Não ter mais que lembrar.

Eu não quero mais sentir meu peito arder quando, sem querer, ouço ou lembro do seu nome.
Eu quero seguir e esquecer. Eu quero! Eu quero!
Falo assim pra, talvez, me convencer.

A verdade é que hoje nos enxergo como somos
E sei que Nós, nunca foi possível, nunca foi provável, nunca foi sequer talvez.
Mas fazer o quê com o que sinto?

A verdade é que eu passei e você ficou.
Passei pra você,
Ficou em mim.
A verdade é que ainda não sei como me obrigar a não te escrever no seu aniversário
Mesmo sabendo que você já esqueceu o meu.
A verdade é que eu queria que fosse diferente.
É verdade, eu ainda não sei viver sem você.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Por hoje - Aniversário

Eu nasci às 19:48h e é em torno deste horário que escrevo.
Hoje completo mais um ciclo, 36 primaveras, tantas e tantas luas, tantas e tantas experiências. Sempre experimentando e olhando o mundo com a sede das novas oportunidades.
Este ano me trouxe alguns desafios intensos, tenho lidado com a finitude de pessoas caras, mas sempre  apostando na vida. Perdi pessoas importantes, temi pela vida de outras, ganhei amigos, conheci pessoas lindas, me afastei de outras, ampliei horizontes, me descortinei pra mim mesma e vivi cada momento com segurança, fé e amparada pelas minhas bases. Meu ori, meus orixás, minha família e amigos.
Viver nunca é fácil, é o que eu penso, mas é prazeroso, tem que ser prazeroso! Eu perdi muito tempo quando mais jovem, sofrendo por conta de ilusões que eu mesma criava, nos últimos ciclos tenho aprendido a olhar o mundo, a mim e as pessoas com verdade, sem justificativas e atenta aos meus próprios julgamentos, foi necessário terapia, fé e uma cota de decepções para chegar até aqui, mas tenho construído uma vida interessante, com alto, baixos e muito amor.
Neste ciclo eu conheci gente que me ensinou o valor da diferença, da superação, do respeito. Teve gente que me ensinou sobre auto-estima, sobre minha responsabilidade no mundo e com o mundo, teve gente que meteu o dedo nas minhas feridas e me mostrou minhas incoerências, outras me permitiram ser parte de suas famílias, de seus corações, de suas histórias. Teve gente que riu comigo no trabalho, que se indignou com tantas questões, que fez falta, que aprende junto e cresce junto. Algumas pessoas me confidenciaram suas inseguranças e mostraram confiança, outras me fizeram assumir uma postura responsável sobre a família, a fé e também sobre mim. Houve algumas que apenas me deram amor, outras mostraram também que eu não fazia parte da vida delas ou que eu estava sobrando por lá, mas eu também tive gente que chorou e riu comigo em todos os momentos, que festejou, que contestou, que assistiu série juntos, que se indignou. Eu tive minha querida mãe me amparando neste ano e a terei por muitos mais. Então eu agradeço por tudo que vivi, por todos e todas que estiveram comigo.
Hoje eu acordei com os meus, abracei, chorei, relembrei, revalidei laços de antiga amizade e amor, hoje eu percorri distâncias para estar com quem amo, com minha família, hoje eu li muita coisa boa, recebi afagos, percebi e senti algumas ausências, porque eu sou dessas que não cobra presença, mas nota e sente. Hoje eu me sinto bem, feliz. Eu tenho a vida que mereço ter e assumo que daqui pra frente só depende de mim aumentar esse bem que eu sinto e que transborda em todas as minhas relações, as relações de verdade e em todos os laços que faço ao longo dessa caminhada.
Eu agradeço por todos os ciclos que vivi e por todos que ainda viverei, por ter pessoas especiais, situações especiais e escolhas especiais na vida. Agradeço por ser parte e pela oportunidade que a vida me dá de crescer sempre mais.
Eu sou complexa e a cada ciclo compreendo mais de mim, acredito que vida após os trinta me trouxe uma compreensão da vida que me permite ser mais eu, mais plena, mais livre.
A cada ciclo eu tenho mais a agradecer, agradeço pela oportunidade de existir, de servir a terra, ao céu e a lua, de amar os meus de ser parte de alguns corações, de viver... Eu tenho vivido cada vez melhor e sinto profunda gratidão por isso.


sábado, 26 de setembro de 2015

Quando o amor acaba... (?)

Enfim, uma hora seria necessário perceber
É verdade, o amor acabou!
E será que pode existir algo depois do amor?
Será que o amor é mesmo como tantas coisas na vida que tem começo, meio e fim?
Não sei se amor, assim como a morte, é algo que possa ser definido.
Definido assim num sentido prático, como quem delimita aqui começa o amor e ali acaba.
Creio mais que o amor se transforma.
Era uma vez duas pessoas que vivendo suas vidas se conhecem, se aproximam, descobrem essa ou aquela afinidade, essa ou aquela vontade de pensar ou compartilhar algo juntas e vão aprendendo a se respeitar, se admirar e, de repente, não se largam mais.
Algo se transformou, virou um imperativo para estar junto, um bem querer, uma coisa sem nome misturada com muitas sensações e eis que você ama.
E a vida acontece, por vezes os sonhos mudam, a cabeça muda, os demais imperativos mudam e o que era amor volta a se transformar.
Às vezes se transforma em raiva, mágoa, dor e algumas raras vezes se transforma em amizade.
Mas acho que a prerrogativa do amor é se transformar, sempre!
Às vezes se transforma em saudade.
E a saudade pode ser a escolha de guardar no coração os melhores momentos de um amor antigo.
E assim foi... Não há mais motivos pra brigar por isso, a vida é como é.
Tem dias que a gente sente mais, eu sinto sempre, mas quem ama, sempre deixa o outro seguir rumo a sua felicidade.
O bem querer sempre permanece, mesmo quando a gente fica no caminho.
Então, vai amor, seja feliz!
Eu continuo te amando nas lembranças que tenho de ti.
Um hora a gente se encontra e dá outro nome pra esse sentimento.

Porque sim, o amor nunca morre, ele se transforma.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Porque ir é preciso...

Bom dia!
Começo este texto, escrito, desabafo com essa cordial saudação, mas não se engane, este é um texto de despedida.
Eu preciso ir e vou, só não sei pra onde, não sei ainda se será por vontade própria, mas sei que será doloroso partir. Eu tenho tentado camuflar a dor e dizer de maneira despretensiosa a meus amigos e amigas que irei pra Finlândia, mas a Finlândia é só uma alegoria, poderia dizer Suécia, Islândia, Suíça ou qualquer país que cremos ser mais igualitário. Mas a verdade é que apenas supomos, não creio realmente que seja mais fácil viver em outro país, pois problemas estão em todos os lugares.
Me despeço porque, infelizmente, não há lugar nessa sociedade para mim. Nem adianta dizer que isto é radicalismo, que o mundo está mudando, que estamos construindo algo que daqui há algumas gerações será melhor, etc. Desculpe, isso não basta. Estou falando de racismo mais a vez, estou falando dos arrastões no fim de semana, estou falando das medidas de segurança e dos discursos de Estado sobre essas medidas, estou falando sobre justiceiros e sobre o posicionamento da "sociedade de bem" nas redes sociais, estou falando do meu desespero em ler sobre tudo isso.
Como pode ter lugar para mim nessa sociedade se há menos de um ano uma mulher negra foi presa no Ceará, acusada de ter assassinado uma turista branca italiana, quase sem direito a defesa, apenas porque a justificativa dela para estar no Ceará era estar de férias. Suspeitaram pq ela não tinha álibi, era negra, estava viajando sozinha, passava os dias lendo à beira da piscina e era doutoranda. Eu poderia ser essa mulher, não, eu sou essa mulher, pois amo viajar, viajo muito sozinha, amo ler, sou negra e estou na mesma faixa etária que ela.
Eu quero ter filhos, não vou entrar nos méritos da questão da afetividade da mulher negra, apenas vou tocar em.um ponto: como eu posso pensar em ter filhos nessa sociedade? Eu sou negra, meu filho será negro. Vejam, por favor, como estão tratando as crianças negras. Vejam o que estão supondo ou fomentando no imaginário social sobre as crianças negras! Vejam e façam algo. Porque não é responsabilidade minha lutar contra todo o racismo, contra todo ódio que vem sendo destilado sobre essas crianças, meus futuros filhos, meus irmãos, primos, pai, avô. Eu não tenho escapatória, a não ser lutar contra isso, mesmo que seja pra manter minha família viva. A gente está lutando pra sobreviver e podemos partir a qualquer momento.
Eu tenho irmãos que são meus tesouros, um professor e músico, outro cientista da computação. São negros. No fim de semana que fez o maior frio aqui no Rio de Janeiro , com o coração sangrando eu orientei um deles a não usar casaco de capuz na rua. Homens negros não têm direito a isso. Eu tenho sobrinhos negros, lindos, duas crianças maravilhosas, um de 5 e outro de 7, os dois lindos, cultuadores de orixá e super sensíveis. Tenho dois irmãos que renasceram para o orixá no mesmo "barco" que eu. Um já tem 10 anos e o outro fará 10 no próximo mês. Há pouco tempo o pai de um deles, também com o coração sangrando, orientou ao filho a não manter as mãos escondidas em situação com policiais, uma criança de 10 anos...
Alguém tem noção do que significa para um pai ter que dizer isso ao filho? Alguém tem noção de como ter que fazer isso o feriu? Crianças negras não podem ser crianças, a marca de sua pele nos impõe limites. Homens negros não podem ser apenas homens, a marca de nossa pele nos impõe limites. A Mulher negra, ah... A mulher negra! Além de não podermos ser apenas mulheres, temos que conviver com todas essas perdas, toda essa dor e salvar o que for possível.
Podemos ser violentadas, podemos ter menores salários, podemos ser chacota por conta de nossa cor, cabelo, corpo, riso...
Um agente do Estado mencionou que um jovem não pode sair de São João de Meriti sem dinheiro para passar o dia na praia. Ora, eu saio de São João de Meriti todos os dias, estou, exatamente agora, num tremendo engarrafamento. Alguém sabe quanto eu tenho no bolso?
Então, se saio para trabalhar, para transformar meu esforço, meu conhecimento, minhas habilidades profissionais em moeda, tudo bem. Longe da praia eu posso transitar, mas se eu quiser ir a praia, não?
Quer dizer que ainda hoje a população negra só serve enquanto estiver disponível pra ser moeda?
Que lugar eu tenho?
Eu tenho outros primos, açougueiros, pastores, assistentes administrativos, tenho primos desempregados, tenho irmãos de santo, tenho a mim mesma e essa sociedade não nos quer, nao nos cabe. Para ela, esses homens são apenas um tipo de suspeito padrão e ninguém se importa em discursar da maneira que aumente esse estigma.
São imagens e discursos que vulnerabilizam a população negra.
Eu preciso mesmo ir, porque se não posso amar, não posso ter lazer, não posso ter filhos, não tenho acesso a estudo e trabalho com dignidade (a não ser que eu me esforce dez vezes mais que qualquer pessoa branca) o que me resta?
Meu único direito garantido desde a escravidão é trabalhar, desde que eu não sonhe em sair da pobreza. E é por isso que eu Brigo (atualmente com bem menos forças) com meus amigos dizendo que o problema da justiça social não é econômico. Pois é justamente a economia, o capitalismo, que mantém essas disparidades que nos hierarquizam.
Mas eu cansei de brigar, cansei, gente. Eu preciso ir antes que me matem ou antes que matem o que ainda resta de amor em mim.
Aos que foram tocados por estas palavras, façam algo, não por mim, mas por cada um de vocês, pra erradicar essa doença que nos têm matado a todos e todas. Aos que acharam radicalismo ou bobagem espero que não tenham que aprender da forma mais cruel sobre tudo isso que falo.
Eu não vou entrar em debates, não vou argumentar sobre isso. Hoje, eu só quero partir.
Desejo que alguém aí tenha um bom dia.
22/09/2015

domingo, 13 de setembro de 2015

Para Azoilda

É assim que nós somos!
Vivemos, lutamos, amamos, choramos, rimos...
Pra nós têm sido assim:
A luta antes do amor, o choro antes do riso.
Essa lógica vem de longe, assim como vêm de longe os nossos passos.
Passos que começam Nelas, que trilhamos sobre a pegada de cada preta que passa nesse mundo.
Eu conheci Azoilda.
Não fui tão próxima, não tive a presença diária de seus sorrisos,
Não conheci sua vida e rotina, mas a conheci.
Conheci sua escrita transformadora, conheci sua força guerreira e amorosa,
Conheci seu olhar que te olha dentro, olha na alma e em instantes se conecta com essa alma ancestral que nos une e, assim, ela dizia exatamente a palavra certeira.
Conheci seu abraço aconchegante, verdadeiro e que está preso nos meus braços agora, enquanto escrevo.
Eu ouvi sua voz melodiosa como o mel de Oxum e como tal encantava para atacar e defender.
Nos defender e atacar todo mal que nos oprime, que nos divide e reprime.
Ainda que haja dor nesses últimos momentos,
Ainda que a cabeça gire pensando na perda dessas mulheres extraordinárias
E nas causas que nos fazem partir
A maior perda seria nos perdermos e, assim, perderíamos o que ela nos deixa.
Ela lutou por nós, mulheres, por uma pedagogia mais humana e inclusiva, lutou com amor.
Eu a conheci e me sinto parte dela, porque ela faz parte de mim e de muitas a quem ela tocou, toca e tocará sempre que seguirmos adiante, pisando em algumas de suas pegadas.
Que Ela se junte às nossas Mães Ancestrais e continue sendo luz e ensinamento de onde estiver.
Porque nós, mulheres negras, vivemos em rede, aqui e em todos os planos.

Auto amor em dias nublados

Chove no Rio de Janeiro.
E aqui dentro tá tudo nublado também.
Finalmente compreendi que  não é fácil morar aqui dentro dessa cabeça.
Na verdade, disso, eu sempre soube, mas acho que agora consegui me alinhar com quem sou.

Sabe, essa estrada de auto amor é muito necessária, mas não é construída por tijolos amarelos como na Terra de Oz.
Às vezes a gente tropeça, faz curvas e se desencontra também.
A gente descobre que amar um outro é mais fácil do que amar a si mesma e aceitar nossas imperfeições.
Porque a gente faz escolhas,
Muitas para nos protegermos, mas podemos (e vamos) ser interpretadas apenas por não querer sofrer mais.

Nessa estrada a gente aprende também que não pode se responsabilizar pelo olhar que o outro tem de nós.
E que algumas vezes sofreremos com más interpretações.
Porque cada um só enxerga com seus próprios olhos (parece óbvio).
E nossos olhos, na maior parte do tempo, estão contaminados pelo nosso passado.

O passado condena a nós mesmas e aos outros, porque não aprendemos viver no presente.
Viver no presente é árduo, exige disciplina e desprendimento
E não é verdade que vivemos apenas o presente.
Vivemos hoje com o olhar de ontem e isso nem sempre é bom.

Chove lá fora e eu sinto medo do futuro.
Medo de um futuro onde não possa contar com esse outro que não me entende.
Mas compreendendo que não consigo me fazer entender
E acho que cansei de tentar pedir confiança a alguém que não pode confiar em ninguém.
E acho que cansei também de tentar me explicar a quem nunca quis me entender.
Ou que nunca me viu sem os olhos das experiências passadas.
É verdade que meu amor não foi embora.
E, sinceramente, hoje sei que nunca irá.

Mas eu vou tentar afastar essa chuva e viver com as nuvens que restaram.
Sim, eu vou tentar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

É agosto, agradeça!

Agosto nunca é um mês fácil, mas sempre me dá a perspectiva da gratidão. Sim, ainda estamos no começo, mas esse é um aprendizado da vida. De toda minha vida.
Nenhum agosto é igual, porque nenhum ano é igual e eu sou eterna mutação.
Estava agora pensando quantas coisas foram resolvidas e pacificadas entre este agosto e o último.
Quantas pessoas saíram da minha vida, algumas não saíram da vida, mas saíram do coração e eu agradeço tanto por isso.
Poucas pessoas entraram efetivamente em minha vida do último agosto pra este, mas outras começaram a fazer parte do coração e eu igualmente agradeço.
Agradeço imensamente também por aquelas pessoas que entraram e permanecem por muitos agostos e creio que permanecerão por muitos outros.
Eu agradeço por entender melhor minha personalidade e lidar melhor comigo e com outros.
Saber, por exemplo, que sou simpática, mas não sociável é uma das grandes coisas que aprendi nos agostos da vida.
Este agosto não está sendo menos difícil, assim como nenhum outro foi.
Mas começar agradecendo pela oportunidade de viver a crise e crescer com ela, já dá outro tom pro agosto que passa.
Ele sempre passa.
Gratidão!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mulher

Mulher,
Bota pra fora essa dor!
Grita tudo que está em seu peito.
Esse peito que acolhe, que dispõe à luta,
Que amamenta, que se abre em amor e dor.
Mulher,
Deixa cair essa lágrima,
Não se envergonhe da tristeza, da fraqueza,
Do cansaço.
A vida é feita de luz e sombra,
De garra, determinação, atropelos.
E não é fácil reconhecer que dói,
Mas ainda mais cruel é ter que esconder a dor.

A vida tatuou a luta na sua carne,
Mas nem só de luta vivemos.
É preciso tréguas, espaço, aconchego, leveza.
É preciso ser, ser você, ser mulher.

Larga essa capa e essa espada,
Deixa cair essa armadura que te protege e te prende.
Abandona esse peso nos ombros,
Sorri, mulher!
Essa alegria no peito também pode ser sua.
E essa lágrima que derrama pode ser minha.
Compartilha.

Mulher,
Existem mãos, corações, almas no mundo.
Não fique sozinha.
Deixa que o mundo perceba que seu corpo é carne.
Que há sangue derramado
Dos seus, dos meus, dos nossos.
Não chore só.
Junte essa tristeza ao rio que nos precede.
Façamos dele um mar que nos leva além.
Além das dores, dos risos.
Onde sejamos apenas nós
Com dores e amores,

Apenas mulher.